O que é Inclusão Sociodigital e como o NCD contribui com ela?

A exclusão digital ainda é um tema atual, mesmo com a imensa quantidade de smartphones e tablets por aí. Porém, antes de falar a respeito dessa exclusão, é fundamental fazer uma retrospectiva dos processos tecnológicos que atravessaram a sociedade mundial. 
 
Na metade do século XX a população mundial passou por uma grande mudança no cenário social. Entre as décadas de 70 e 90 o processo tecnológico ganhou uma grande proporção, afetando o trabalho e a rotina das pessoas, afetou a política, o social e o econômico. A modernização dos meios de comunicação e a influência principalmente da internet transformou a sociedade e a vem transformando todos os dias (Barros, Costa, Santos, 2010). 
 
Com o avanço da internet na sociedade informacional, como alguns autores denominam a sociedade contemporânea, muitos projetos inclusivos surgem com o objetivo de distribuir alguns computadores conectados à internet, para que as pessoas, em especial as populações de baixa renda, possam utilizar. Assim, acredita-se que disponibilizando as tecnologias de informação e comunicação (TICs) as pessoas estarão incluídas digitalmente (Barros, Costa, Santos, 2010).
 
O esforço para permitir que cada vez mais pessoas tenham acesso as TICs é grande, porém segundo o resultado da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (INSTITUTO, 2009), apenas 34,7% dos domicílios brasileiros possuem um microcomputador. Ao considerar os domicílios com acesso à internet o índice diminui para 27,4%.
 
O resultado da pesquisa TIC Domicílios e Usuários (CENTRO, 2010), não só ratifica os dados do IBGE, mas também completa o cenário ao revelar que, quando segmentado por classes sociais, os índices de domicílios com computador e com acesso a internet caem, respectivamente, para 34% e 24% na classe C e para 5% e 3% nas classes DE. Ao considerar o uso independente da posse, no Brasil, 46% da população nunca utilizou um microcomputador na vida, e nas classes C e DE esse índice é de 42% e 75% respectivamente. Ao considerarmos que as classes C e DE correspondem a 54% e 24% da população brasileira respectivamente (CETELEM, 2012), podemos verificar que a parcela da população brasileira digitalmente excluída ainda é significante.
 
Segundo Silva (2008), “a inclusão sócio-digital é um fator estratégico para o desenvolvimento dos países por meio da capacitação dos seus cidadãos e da participação deles na sociedade e na economia informacional. Muitas vezes a política de promoção da inclusão é falha conceitualmente e, sobretudo nos países em desenvolvimento, o investimento é disperso e sem resultado social”.
 
Diante desses dados, nota-se que a maioria da população brasileira encontra-se excluída digitalmente, logo, também socialmente. A exclusão sociodigital é uma grande ferida social, mas que com iniciativas como o Núcleo de Cidadania Digital (NCD) é possível diminuir esse impacto negativo.
 
Nesse contexto, o Núcleo de Cidadania Digital (NCD) foi criado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 2005, por um grupo envolvendo a academia, iniciativa privada e terceiro setor. O Núcleo é dirigido e articulado por estudantes sob a orientação de um professor da instituição, constituindo-se um modelo sustentável e com forte ligação entre todas as esferas da sociedade para promover a cidadania cigital e a inclusão social. Desse modo, o NCD vem repensando o significado de inclusão digital em um sentido mais amplo de promoção de cidadania: inclusão digital não é apenas ter acesso à internet ou a outros meios de comunicação, mas sim como os usuários podem aproveitar o aprendizado para transformar a sua realidade e da comunidade onde moram, propiciando uma aprendizagem coletiva (Barros, Costa e Santos, 2010).
 
O Núcleo tem como objetivo ampliar o número de pessoas atendidas para que estas possam ser incluídas social e digitalmente por meio dos produtos e serviço que o NCD oferece. Os serviços são oferecidos às comunidades da Grande Vitória (ES) com total gratuidade, e englobam o acesso a 22 computadores e à internet, disponibilidade de cursos, impressão a laser e a braille, acessibilidade às informações públicas e governamentais em uma linguagem clara, para facilitar a compreensão e o acesso dos usuários, além de recursos que permitem o contato de pessoas com deficiência, especialmente deficientes motores ao nível dos membros superiores (tetraplegia e amputação) e portadores de deficiência visual parcial e total.
 
Em relação aos cursos que o Núcleo oferece, eles têm como característica a organização em módulos e podem ser reajustados para atender facilmente as necessidades de turmas específicas. Possuem, ainda, apostila de referência, que é disponibilizada tanto digitalmente quanto impressa em Braille (para deficientes visuais) e têm por essência a linguagem informal e a aplicabilidade dos assuntos na vida do aluno.
 
O Tela Cidadã é um portal online de transparência pública que reúne e disponibiliza indicadores e gráficos da vida institucional e política do país a partir de bases de dados abertos governamentais e em consonância com a Lei de Acesso a Informação - Lei 12.527, de 18/11/2011. O NCD trabalha com dados abertos para incentivar as comunidades da Grande Vitória a investigarem sobre o que acontece no seu estado.
 
Vários sites reúnem dados sobre os poderes públicos, mas da maneira como são disponibilizados, grande parte da população não consegue encontrar o que necessita ou possui dificuldade na compreensão. Quanto ao uso do governo eletrônico, cerca de 77% da população não usa os serviços online disponibilizados pelo governo, 33% por não encontrar ou por considerar difícil encontrar os serviços de que necessitam, 14% por questões de proteção e segurança de seus dados e 9% por considerar a comunicação online com a administração pública muito complicada (CENTRO, 2010).
 
Assim, com o portal de transparência pública telacidada.org, o NCD leva para os cidadãos, de forma simplificada, informações a respeito da destinação de verbas públicas, atuação de parlamentares, relatório de gastos de deputados e senadores, carga de trabalho de servidores públicos, aprovações ou projetos de leis, entre outros.
 
O NCD desde 2005 conseguiu alcançar ótimos resultados em termos de atendimento às necessidades do público-alvo. Hoje, o Núcleo possui mais de 10.500 usuários cadastrados e realiza cerca de 3000 atendimentos mensais, com uma frequência média de 100 usuários por dia. Além disso, o programa já capacitou mais de 130 turmas através dos cursos de informática. 
 
Por fim, toda produção bibliográfica e material didático do Núcleo de Cidadania Digital é registrada sob a licença Creative Commons que permite a livre distribuição de conteúdo e estimula a criação de novas produções com base nas originais. Assim, todo o material que o NCD produz, tais como as apostilas dos cursos, estão disponíveis online (no próprio site, www.ncd.ufes.br) de forma gratuita.
 
 
Autora: Joselia Alves - Coordenadora de Projetos e Inovação no NCD